Aos 40 anos, Isa Dick Hackett põe fim às adaptações cinematográficas que nunca honraram o legado de seu pai, o visionário escritor Philip K. Dick.
Dirigido por Lee Tamahori e baseado no conto The Golden Man, O Vidente (2007) foi o último título inspirado na obra do mestre de ficção científica, sobre o qual a herdeira não teve controle. ”Não venderei mais os direitos autorais de seus livros e contos, sem que a minha produtora esteja envolvida”, disse Isa, que fundou com a irmã Laura Leslie a Electric Shepherd Productions.
Quando o pai morreu, há 25 anos (quatro meses antes da estréia de Blade Runner - O Caçador de Andróides), Isa, Laura e o irmão Christopher tornaram-se responsáveis pelo seu espólio. ”Éramos muito jovens e não sabíamos o que fazer.” O primeiro projeto do qual a sua produtora participou foi O Homem Duplo (2006), adaptação do livro A Scanner Darkly, assinada por Richard Linklater. ”Alguns diretores têm sensibilidade para proteger a integridade da obra. Outros só a usam como desculpa para filmar cenas de ação e criar efeitos especiais.”
Além de O Homem Duplo, a única adaptação que a herdeira aprova é, obviamente, Blade Runner, de Ridley Scott, que virou cult. A Warner Home Video acaba de lançar uma edição especial em DVD, com a versão inédita do diretor - incluindo sequências restauradas digitalmente e a extensão da cena do sonho do unicórnio, entre outras mudanças sutis. ”Essa adaptação será sempre a minha favorita pelo impacto profundo que teve sobre o legado de meu pai. Ela tornou a sua obra conhecida do grande público.” Isa até batizou a Eletric Shepherd (Pastor Elétrico, na tradução) em referência ao título original do livro que inspirou Blade Runner, Do Androids Dream of Electric Sheep? No Brasil, o título do livro, agora relançado pela Rocco, é O Caçador
de Andróides (256 págs., R$ 36).
As demais obras que refletem a mente insólita e futurista de Dick não são motivo de orgulho para a filha. Principalmente O Pagamento (2003), de John Woo, que buscou inspiração no conto Paycheck. ”Virou um festival de perseguições automobilísticas e tiroteios.” Nem Steven Spielberg conseguiu agradá-la, com Minority Report - A Nova Lei (2002), baseado em conto homônimo. ”Não gosto do final, otimista e luminoso demais, que não é coerente com a obra.” Isa vê ”algum mérito” em O Vingador do Futuro (1990), visão do diretor Paul Verhoeven sobre o conto We Can Remember It for You Wholesale, mas também não aprova a versão.
”Agora preciso ter certeza de que material cairá nas mãos certas”, afirmou Isa, atualmente à procura de um diretor para comandar o set da adaptação do livro Ubik. E ela não quer parar aí. ”Meu pai deixou 40 livros e mais 125 contos. O material é inesgotável.” A filha só lamenta que o escritor não tenha saboreado o reconhecimento em vida. ”Nunca vou esquecer a experiência horrível de ver Blade Runner no cinema, em 1982, aos 15 anos”’, disse, lembrando que ninguém entendeu o filme e que as criticas foram péssimas. ”O cinema estava vazio e nem consegui ler o créditos finais, com a dedicatória para o meu pai, porque acenderam a luz. Fui para casa chorando.”
Fonte: Estadão