[RESENHA] Mistura de Gêneros

O autor carioca Miguel Carqueija é uma das figuras mais constantes da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, iniciada em 1982 com os fanzines Boletim Antares (Porto Alegre) e Star News (São Paulo). Segundo o catálogo de contos de Ruby Felisbino Medeiros, Carqueija publicou sua primeira história em novembro de 1983 no Jornal da Vila Isabel; seu primeiro conto em fanzine apareceu em dezembro do mesmo ano, no Hiperespaço de Cesar Silva, José Carlos Neves e Mário Dimov Mastrotti.

Desde então ele publicou dezenas de histórias e poemas em fanzines como Boletim Antares, Hiperespaço, Juvenatrix, Megalon, Papêra Uirandê e Somnium, e alguns nas revistas Dragão Brasil, HorrorShow e Perry Rhodan, além de livros amadores editados por conta própria, na Internet ou em parcerias como aquela com a revista semi-profissional Scarium MegaZine e o seu site. Tudo isso faz de Carqueija um escritor especialmente ativo dentro desse período, mas o também uma espécie de “autor quintessencial da Segunda Onda” por sua adesão aos fanzines e sua insistência em não diferenciar seus contos impressos nessas publicações amadoras de fãs, e aqueles publicados em veículos profissionais – revistas e antologias.

Carqueija é um amador consumado – expressão que aqui é elogio e não censura -, tanto por seu amor pelas páginas dos fanzines, quanto pelo amor pela escrita que o fez persistir por anos a fio e em condições que desestimularam dezenas de outros praticantes da FC em fanzines, hoje inativos.

Há um lado de Carqueija, porém, que o remete à Primeira Onda (1958-1972): o seu catolicismo. Nisso ele se alinha com o editor mais importante dessa fase, Gumercindo Rocha Dorea, das Edições GRD, que faz parte dessa tendência bem brasileira de um pensamento católico. Dorea recheou sua coleção Ficção Científica GRD (1958-1965) com obras de peso em que a questão religiosa, cristã (ainda que não necessariamente católica), aparece em primeiro plano: Um Cântico para Leibowitz (1960), de Walter M. Miller, Jr.; Um Caso de Consciência (1958), de James Blish; Além do Planeta Silencioso (1938), de C. S. Lewis; Os Mutantes (1956), de John Wyndham. Algumas dessas obras até mesmo expõem problemas e limitações da religião organizada. De qualquer modo, o fato de Dorea ter publicado Carqueja em apenas uma ocasião – um conto na antologia Dinossauria Tropicália, na Ficção Científica GRD Segunda Série (1988-1995) – é negligência de ambas as partes.

Um outro lado de Carqueija é o seu recente interesse pela cultura popular – a japonesa em especial – e essas duas facetas aparecem neste que é o primeiro livro de Carqueija publicado profissionalmente, uma novela juvenil lançada pela Giz Editorial. A dedicação de Carqueija ao infanto-juvenil é outro traço distintivo, que o alinha com o crítico Cesar Silva, um dos co-editores (com Marcello Simão Branco) do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Na edição referente a 2007, Silva escreveu que, “entre os muitos autores de FC&F atuando no ambiente dos fãs, Carqueija é o que reúne as melhores condições para conquistar bons resultados comerciais no mercado editorial”.

Silva é um fã de José J. Veiga, Michael Ende e outros autores importantes às vezes identificados com a literatura juvenil, e tem idéias próprias sobre o que esse campo poderia fazer para a difusão da FC no Brasil. Há anos que ele advoga uma atenção maior a ele – mais ou menos como hoje alguns fãs e escritores falam de um retorno à pulp fiction para alcançar um público maior.

Silva assina a introdução de Farei meu Destino, onde escreve: “Como editor amador, apoiei o trabalho de Miguel Carqueija exatamente porque percebi nele essa dedicação aos leitores jovens… A publicação de Farei meu Destino é uma rara iniciativa da literatura de ficção científica brasileira em fazer alguma coisa pragmática pela verdadeira renovação do corpo de leitores do gênero.”

O livro, porém, é ambíguo tanto como FC, quanto como juvenil. Ele abre com uma prosa mais introspectiva e mais suave do que costumamos ter em Carqueija, um tom que faz muito pelo início da narrativa.

A menina Diana, de 13 anos, vive num orfanato em um futuro de contornos indeterminados. No orfanato, as meninas são abusadas física e sexualmente, com o apoio tácito de Madre Ema, a diretora do lugar. Diana comanda uma rebelião, que leva à sua fuga e de cinco amigas. Na fuga, um abalo sísmico de grandes proporções destrói o orfanato e dificulta a perseguição. Quase que sem qualquer preparação, elas se encontram com um garoto chamado Sandy, de quem extraem alguma ajuda, dizendo que precisam muito de “ajuda e amor”. Para isso elas o cobrem de beijos: “Sandy era normal. Ser carinhosamente beijado por seis garotas que mal acabara de conhecer era algo a que ele não poderia ficar indiferente. Eram doces e singelas.”

Acho difícil conciliar essa doçura com a brutalização e os estupros sofridos no orfanato. Certamente esse é o maior problema do livro: eu me pergunto se Carqueija tem uma idéia clara do quadro que pinta, ao tratar de chibatadas e estupros de adolescentes nas celas escuras de uma instituição religiosa. E, fugindo desse abuso, elas formam alegremente um grupo de heroínas vestidas de ninja ou com shortinho e camiseta. Pouco vestidas, passam por uma parada de caminhoneiros e são confundidas com meninas-prostitutas de beira de estrada. Faltou sensibilidade a Carqueija, em entender que são imagens e assuntos de um peso que não cabe na leveza da sua prosa juvenil e que não são facilmente, singelamente, resolvidos pelos percalços do enredo. Têm na verdade a tendência a permanecer e azedar algo da jovialidade da narrativa.

Parte disso é compensado pelo estranhamento que o futuro de Carqueija encerra. Grandes tribulações afligiram o mundo, entre o presente e esse futuro, e a tecnologia que ele apresenta é meio retrô, juliverniana – com dirigíveis gigantes com destino à Lua. O fato principal, porém, é que a magia e o sobrenatural estão lado a lado dessa visão futura nostálgica. Diana, a heroína, recebe instruções de mentores espirituais – Edgar Allan Poe entre eles – por meio de sonhos, e consegue levar sua amiga até eles, penetrando o mundo onírico. E a oposição que elas enfrentam é, por assim dizer, diabólica. O vôo à Lua só se completará se as meninas, formando uma equipe coesa, empregarem poderes ocultos de teleportação. O confronto final será na superfície do satélite da Terra.

Neste momento em que se fala tanto de mistura de gêneros como um novo caminho para a literatura especulativa nacional, aí está um exemplo que se configura com uma certa economia e facilidade (lembrando a estética dos filmes B), na evocação do estranho embutido nessa mistura. Há ainda, em certos instantes, a sensação de um mix dos desenhos japoneses Full Metal Alchemist e Sailor Moon. Não posso negar que, ao menos para mim como leitor, esse tipo de referência e de homenagem – visto antes, por exemplo, em Espada da Galáxia (1995), de Marcelo Cassaro – tem lá os seus encantos.

A tentativa de ser econômico, por outro lado, leva Carqueija ao cacoete de indicar quem fala num diálogo, com o nome da personagem antes do travessão – recurso teatral que às vezes aparece na prosa de ficção, como um recurso “de montagem”. Não é o caso aqui, e o truque em nada contribui para a novela. Parece sugerir, ao contrário, falta de paciência do autor em explicar por outros meios quem fala o quê, e quando. Carqueija é mais feliz sugerindo, com economia real, o caráter e a determinação da sua heroína.

A qualidade sintética da sua prosa me enganou – a certa altura eu tinha certeza de que o livro não poderia alcançar um final realmente conclusivo, e que, portanto, ele seria o primeiro de uma série. Mas não. O livro se fecha, e relativamente bem, com toda aquela pirotecnia que vemos nos desenhos animados japoneses, de algum modo sem que isso pareça tirado do chapéu. Mérito do autor, que em outros momentos não consegue a mesma harmonia entre tema e tratamento.

por Roberto de Souza Causo
Terra Magazine

Uma resposta para [RESENHA] Mistura de Gêneros

  1. camilafernandes disse:

    Resenha muito competente!

    Linkei vocês.🙂

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