[LITERATURA] A Volta ao Mundo da Ficção Científica

Um sinal de que a ficção científica está, aos poucos, deixando de ser vista com um gênero marginal no Brasil é o lançamento da antologia Volta ao Mundo da Ficção Científica Volta ao Mundo da Ficção Científica, organizado por  Edgar Cézar Nolasco & Rodolfo Rorato Londero, (Editora UFMS), 167 págs.).

Isso porque é o primeiro livro de não-ficção sobre o gênero já publicado no país a reunir um conjunto de autores e pesquisadores especializados. Em um contexto mais amplo, é resultado do novo bom momento editorial que a ficção científica vive no Brasil, mas também representa uma abertura inédita da universidade para o seu estudo como objeto de pesquisa, numa mostra da renovação dos estudos acadêmicos literários brasileiros, a partir de novos e jovens pesquisadores.

O livro foi organizado por um professor de Literatura Comparada, da UFMS, Edgar Cézar Nolasco e o mestre em Letras pela mesma universidade, Rodolfo Londero. E é dos dois os primeiros artigos do livro.

Em “Clarice e a Ficção Científica”, Nolasco procura vínculos entre a literatura da prestigiada autora brasileira do mainstream Clarice Lispector (1920-1977) e a ficção científica. Justifica-se pelos temas intimistas e quase metafísicos da autora e por seu trabalho de tradutora de Edgar Allan Poe, Jonathan Swift e Jules Verne. Embora seja uma tentativa interessante, não vai além de um exercício curioso de exploração crítica.

Já Londero é mais direto em trabalhar com a ficção científica. No texto “Níveis de Recepção da Ficção Cyberpunk no Brasil: Um Estudo de Casos Exemplares”, é proposto um exame ambicioso na verificação de como o subgênero cyberpunk é assimilado pela literatura brasileira. Por meio de uma análise de diferentes níveis de recepção, o direto, indireto e análogo, algumas obras são comentadas à procura de nexos com o mainstream. O autor defende que os brasileiros parodiam a tradição estrangeira, mas sugere mais que isso, embora não aprofunde. O que chama a atenção é que o autor não dialoga com a reflexão já existente no Brasil sobre o assunto, com o conceito de tupinipunk, do escritor Roberto de Sousa Causo, em que é proposto uma maneira brasileira para abordar temas cyberpunks mais voltados à realidade social e histórica do país.

Alfredo Suppia é autor de “Ficção Científica e o Despertar do Interesse Científico: O Fator Eureka”. Aqui o campo de análise é o cinema, com o objetivo de discutir como o gênero pode servir de instrumento de interesse do grande público por temas científicos. Daí vem a ideia do “fator Eureka”, ou seja, aquilo que seduziria o espectador em termos estéticos ou cognitivos para os assuntos ligados à ciência vistos nos filmes. Também é outro artigo que demanda mais pesquisa, em uma linha promissora.

O próximo texto é “História e Representação: O Jogo de Memória e Realidade em O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick”, de Anderson Soares Gomes. A perspectiva analítica é a de uma relação entre o passado real e a narrativa imaginada no romance em questão e como, por meio dela, é possível uma reflexão sobre a questão histórico-cultural nos Estados Unidos da segunda metade do século 20. O trabalho é sofisticado, mas dialoga pouco com a ficção científica e mais com o pós-modernismo. Embora pertinente, termina por resvalar em aspectos secundários do enredo do romance.

Na sequência vem o escritor e tradutor Fábio Fernandes, com “Para Ver os Homens Invisíveis: A Intempol e Sua Influência na Literatura de Ficção Científica Brasileira”. Ele defende que o gênero sofreria de uma “invisibilidade cultural”, idéia anteriormente exposta pelo jornalista Dorva Rezende, no prefácio da antologia Ficções (2006). Para Fernandes o universo de histórias compartilhadas Intempol – uma polícia do tempo parecida com alguns aspectos de setores da polícia brasileira: ineficiente, autoritária e corrupta -, poderia dar mais visibilidade e ainda renovar o gênero. É quase jornalístico, pois noticia projetos e desenvolve argumentos que, nesta altura, mostram-se questionáveis, pois não tem tornado o gênero mais visível a partir desta perspectiva.

A seguir temos “A Ficção Científica no Cordel”, do escritor Braulio Tavares. É mais um dos seus oportunos trabalhos de pesquisa, em que procura as possíveis afinidades entre gêneros aparentemente distantes. Para Tavares, os pontos de aproximação entre a ficção científica e a literatura de cordel – histórias em versos de sonoridade quase oral, populares no Nordeste do Brasil -, se vinculariam menos nos temas tratados do que numa origem comum, a das expressões literárias populares, à margem do mainstream, à semelhança de fenômenos semelhantes que ocorreram historicamente na Europa e nos Estados Unidos.

Já em “O Poeta que Viu o Disco Voador”, o escritor Roberto de Sousa Causo analisa a noveleta O 31o Peregrino (1993), de Rubens Teixeira Scavone (1925-2007). Baseada em The Canterbury Tales, de Geoffrey Chaucer, poeta inglês do século 14, Scavone acrescenta um 31o peregrino aos originais e insere o contexto de uma “história dentro de uma história” do relato original, a partir de um ponto de vista fantástico, com a aparição de um UFO e uma abdução subseqüente. Causo procura mostrar a riqueza da abordagem, tanto temática, como do estilo de Scavone, reatualizando, com os olhos do passado, a mitologia contemporânea dos discos voadores, numa obra-prima da ficção científica brasileira.

A acadêmica brasilianista Mary Elysabeth Ginway assina “A Cidade Pós-Moderna na Ficção Científica Brasileira”, em que procura, primeiro situar a concepção de cidade pós-moderna – em histórias de barbárie e reconstrução -, para em seguida, discutir as características do cyberpunk brasileiro – o já citado tupinipunk – em contraste com o norte-americano. Ginway ressalta a postura brasileira como terceiro-mundista, com ênfase no sincretismo religioso e na maior liberalidade com temas sexuais. Pois este artigo dialoga com o de Londero, mas em um nível que faltou àquele, por uma busca de compreensão das especificidades do modo cyperpunk brasileiro, não do ponto de vista da teoria literária e uma eventual assimilação do mainstream, mas do diálogo no interior do próprio gênero, em termos mais comparativos.

O próximo trabalho é de Ramiro Giroldo, “Outra Utopia”. O foco está centrado no romance Amorquia (1991), de André Carneiro, objeto de pesquisa da dissertação de mestrado do articulista defendido na UFMS, em 2007. Giroldo discute a obra por dois ângulos, o da ambigüidade entre ser uma utopia ou distopia e a questão subjacente da ausência da noção linear de tempo dentro da narrativa.

Amorquia causou muita polêmica quando de seu lançamento, com a maioria dos críticos e leitores do fandom não gostando da obra. Os problemas seriam um enredo confuso e estéril, personagens apáticos e uma ambientação asséptica. A interpretação de Giroldo joga luz na obra e nas observações críticas da época, vendo-a de um prisma mais positivo, muito embora forneça também reforço aos argumentos anteriores, já que se o livro é, de fato, uma obra sofisticada, fica aquém de suas pretensões, pois é insatisfatória do ponto de vista da estrutura narrativa e dos temas tratados. De maneira coerente, a antologia termina com um sugestivo conto “Pensamento”, de André Carneiro, o decano dos autores brasileiros de ficção científica.

Em resumo, Volta ao Mundo da Ficção Científica é um livro interessante por trazer ao ambiente universitário uma obra sobre o gênero, numa tendência que aos poucos vai crescendo nos últimos anos. Já em termos de conteúdo, o resultado é irregular, com alguns textos mais relevantes e de que melhor qualidade do que outros -com destaque para os de Causo, Ginway, Giroldo e Suppia. Pode-se dizer que isto acontece na maioria das antologias e é verdade, mas talvez fosse possível um maior apuro na seleção dos trabalhos, para que houvesse um equilíbrio maior. Como primeira tentativa de antologia de não-ficção sobre ficção científica, no entanto, o saldo é positivo – e que inspire outros tanto dentro do ambiente acadêmico como fora dele, no cenário cultural brasileiro.

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por Marcello Simão Branco

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